2 de dez de 2011

A Idade e a mudança, por Lya Luft


NAN LAURINO

"Mês passado participei de um evento sobre as mulheres no mundo contemporâneo. 
 
 
Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres  de todas as raças, credos e idades. 
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. 
  

Foi um momento inesquecível...  A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito. 
  

Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório 
há quase uma hora exibindo minha inteligência, 
e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho?
 
Onde é que nós estamos?' 

 


Onde, não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. 
Estão todos em busca da reversão do tempo. 
  
   
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas. 
  
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas, mesmo em idade avançada. 
A fonte da juventude chama-se 'mudança'. 
 
De fato, quem é escravo da repetição está condenado 
a virar cadáver antes da hora. 
  

A única maneira de ser idoso sem envelhecer
é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. 
  
Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos. 
  
Mudança, o que vem a ser tal coisa? 
  
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme 
em que morou a vida toda para um bem menorzinho. 
 
 
Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada,  rejuvenesceu. 
 
 
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens
do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. 
  
Rejuvenesceu. 

 
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou 
um baita emprego por um não tão bom,
 só que em Florianópolis, 
onde ela vai à praia sempre que tem sol. 
 
 
Rejuvenesceu. 
 

Toda mudança cobra um alto preço emocional. 
  
Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, 
chora-se muito, os questionamentos são inúmeros,
 a vida se desestabiliza. 
  
Mas então chega o depois, a coisa feita, 
e aí a recompensa fica escancarada na face. 

 
Mudanças fazem milagres por nossos olhos, 
e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. 
  
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem,
 só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. 
 
 
Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. 

 
Olhe-se no espelho..."
 

Lya Luft 
(recebido por email)