10 de nov de 2010

PALAVRAS, PALAVRAS ...


A TRISTE E DÓCIL PALAVRA
NAIR LACERDA


A PALAVRA... CRIATURA, QUASE. VIVA, QUENTE, OU ÁLGIDA E PUTREFATA. MARAVILHA QUE DÁ RUMO À VIDA DE CADA QUAL, QUE LEVA A CADA QUAL O BRILHO DE SOL OU NEVOEIRO DE LÁGRIMAS, QUE AFIRMA E RECUSA, QUE CONSOLA OU INSULTA, QUE ENOBRECE OU DIFAMA. A PALAVRA, A DÓCIL, TRISTE PALAVRA.
RIBEIRO COUTO DIZ ALHURES, EM SEU JARDIM DAS CONFIDÊNCIAS, SE BEM RECORDO: “...AS PALAVRAS QUE ESTÃO DENTRO DE NÓS, CHORANDO...”. QUANTAS FICAM ASSIM, RECOLHIDAS, MUDAS, EM PRANTO SUFOCADO, DENTRO DE NÓS. PALAVRAS QUE GOSTÁRIAMOS DE GRITAR AO VENTO, DE BRANDAR AO CÉU. E QUE SÓ PARA NÓS EXISTEM, PRISIONEIRAS DE NOSSA SOLIDÃO.
PALAVRA SOBERANA, QUE ERGUE CIVILIZAÇÕES E DESTRÓI IMPÉRIOS, QUE PROCLAMA A GUERRA E FESTEJA A PAZ. “PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS”, É O ECO DA VOZ DO POETA ATRAVÉS DOS SÉCULOS. INSTRUMENTO NA BOCA DOS HOMENS, MAIS AFIADA DO QUE UM PUNHAL, MAIS RÁPIDA E CERTEIRA DO QUE UMA AZAGAIA, MAIS SUAVE DO QUE MÃO MATERNA, MAIS ALEGRE DO RISO DE CRIANÇA. PALAVRA QUE PROMETE, PALAVRA QUE MATA A DERRADEIRA ESPERANÇA, PALAVRA QUE RASTEJA COMO ANIMAL IMUNDO. SEMPRE DOMINADORA E PODEROSA, A DÓCIL, TRISTE PALAVRA.
UM HOMEM CHAMA-SE PITÁGORAS, E SUA PALAVRA DIZ:
 “ QUE NUNCA CHEGUE A NOITE A TE FECHAR OS OLHOS SEM QUE INQUIRAS DE TI: - QUE ME ESQUECEU? QUE FIZ? FOI O MAL? FOGE DELE. FOI O BEM? PERSEVERE. MEUS CONSELHOS MEDITA, AMA-OS E SEGUE-OS TODOS, QUE ELES TE LEVARÃO ÀS DIVINAS VIRTUDES”.
“MAS SEGUE AS MINHAS LEIS PRIVANDO-TE DAS COISAS QUE TUA ALMA, OBSERVANDO-AS BEM, DEVA TEMER. DEIXA NO CORPO TEU REINAR A INTELIGÊNCIA, A FIM DE QUE, SUBINDO AO ÉTER FULGURANTE, JUNTO DOS IMORTAIS SEJAS TU MESMO UM DEUS!”.
NUM SALTO NO TEMPO E NO ESPAÇO, É RUDYARD KIPLING QUEM REÚNE PALAVRAS PARA DIZER:
“SE ÉS CAPAZ DE, ENTRE A PLEBE, NÃO TE CORROMPERES, E, ENTRE REIS, NÃO PERDER A NATURALIDADE, SÊ DE AMIGOS, QUER BONS, QUER MAUS, TE DEFENDERES, SÊ A TODOS PODES SER DE ALGUMA UTILIDADE, SE ÉS CAPAZ DE DAR, SEGUNDO POR SEGUNDO AO MINUTO FATAL TODO O VALOR E BRILHO, TUA É A TERRA COM TUDO O QUE EXISTE NO MUNDO E – O QUE AINDA É MUITO MAIS – ÉS UM HOMEM, MEU FILHO!”
E AQUELE LUSITANO DE LONGAS BARGAS BÍBLICAS, AQUELE IRREVERENTE E SUAVE GUERRA JUNQUEIRO, QUE SABE DIZER:
“TUDO O QUE EXISTE É IMACULADO E SANTO: HÁ EM TODA A MISÉRIA O MESMO PRONTO E EM TODO O CORAÇÃO UM GRITO IGUAL. DEUS SEMEOU DE ALMAS O UNIVERSO TODO, TUDO O QUE VISE, E RI, E CANTA, E CHORA TUDO FOI FEITO COM O MESMO LODO, PURIFICADO COM A MESMA AURORA...”.
APANHA ALÉM A TRISTE, DÓCIL PALAVRA, E DECLARA:
“BOM ESTÔMAGO E VENTRE LIVRE, UM PATRIMÔNIO. A VIDA É BOA OU MÁ, FAZ RIR OU CHORAR, CONFORME A DIGESTÃO E CONFORME O JANTAR. TODA A FILOSOFIA, PODE CRÊ-LO, DOUTOR, OU TRISTONHA OU RISONHA, OU ALEGRE, OU SOMBRIA, DERIVA EM NÓS, TÃO ORGULHOSAS CRIATURAS DE GASTROINTESTINAIS COMBINAÇÕES OBSCURAS...”.

TUDO SE DIZ, TUDO SE CALA, TUDO SE CONSTRÓI E TUDO SE ARRUINA COM PALAVRAS. TANTO QUANTO SABEMOS ATÉ O DIA DE PRESENTE, SÓ O HOMEM SABE USÁ-LAS. PODE FAZER DELAS UM FACHO DE LUZ. OU UM PUNHADO DE LAMA.

(Publicado na A Tribuna de Santos, dia 05 de maio de 1994
Fonte http://www.santoandre.sp.gov.br/biblioteca/nl/cronicas/lacerda)