2 de dez de 2010

O MAL DA FARTURA, por NAIR LACERDA


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CONTRARIANDO VELHA EXPRESSÃO LATINA, QUE PODEMOS, SEM MAIS CERIMÔNIAS, TRADUZIR COMO “ANTES DE MAIS DO QUE DE MENOS”, DECLARO QUE A FARTURA É, QUASE SEMPRE, UM MAL. SENÃO, VEJAMOS: FARTURA DE ÁLCOOL DÁ BEBEDEIRA, FARTURA DE COMIDA DÁ MIL MALES PERIGOSOS, FARTURA DE CRIANÇAS DÁ MISÉRIA E ABANDONO, FARTURA DE ESCOLAS “SUPERIORES” DÁ POUCOS “SUPERIORES”, FARTURA DE CHUVA DÁ INUNDAÇÕES, FARTURA DE SECA DÁ MUITA DESGRAÇA, FARTURA DE INDÚSTRIAS DÁ POLUIÇÃO, FARTURA DE COMPOSITORES POPULARES DÁ RUÍDOS INCRÍVEIS, FARTURAS DE CANTORES DÁ MUITO MIADO E MUITOS URROS, FARTURA DE FUTEBOL ACABA ENJOANDO, ETC., ETC., ETC.
TÃO “BRILHANTE” E “INÉDITA” CONCLUSÃO SURGIU DIANTE DA FARTURA DE NOTÍCIAS, EM TODOS OS CHAMADOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO, QUE SÓ ACABAM COMUNICANDO PERPLEXIDADE, À FORÇA DE COMUNICAR DEMAIS. TANTOS E TÃO VARIADOS SÃO OS ASSUNTOS, TANTAS E TÃO VARIADAS AS OPINIÕES, TANTAS AS AFIRMATIVAS E CONSEQUENTES DESMENTIDOS, TANTAS AS CRITICAS CONTRADITÓRIAS E AS EXPLICAÇÕES CONFLITANTES, SABEMOS TANTO SOBRE TODAS AS DESGRAÇAS DOS MAIS RECUADOS RINCÕES DO MUNDO E SOBRE AS AVENTURAS GALANTES DE QUANTOS SÃO CONSIDERADOS – SABERÁ DEUS POR QUE – “NOTÍCIA”, QUE, ABARROTADOS ATÉ A GARGANTA COM INFORMAÇÕES, ACABAMOS POR NOS DESINTERESSAE DE TODAS ELAS NEGANDO-LHES FÉ E CONFIANÇA.
ALGUÉM TERIA DITO, ALGURES, QUE “O JORNAL É A TOALHA COM QUE A CIVILIZAÇÃO ENXUGA O ROSTO TODAS AS MANHÃS”. PARA FICARMOS DENTRO DA ÉPOCAPODERÍAMOS DIZER QUE O RÁDIO E A TELEVISÃO SÃO AS COTONETES COM QUE LIMPAMOS OS OUVIDOS A TODAS AS HORAS, EMBORA O JORNAL TENHA PASSADO A ENXUGAR LÁGRIMAS E NOSSOS OUVIDOS JÁ ESTEJAM INFLAMADOS COM TANTA LIMPEZA.
A ATENTAR PARA O TEOR DA GRANDE MAIORIA DO NOTICIÁRIO ATUAL, TEMOS A IMPRESSÃO DE QUE ELE É FORNECIDO POR ALGUMA INDÚSTRIA DO PÂNICO, QUE DESEJA, SADICAMENTE, A HUMANIDADE TRANSIDA DE MEDO DIANTE DO QUE ACONTECE E DIANTE DO QUE NOS INFORMAM QUE ACONTECERÁ. ACONTECIMENTOS E INDIVÍDUOS SÃO DESPÍDOS, DISSECADOS, POSTOS PELO AVESSO, CONFORME A CADA QUAL PARECE MELHOR EXIBÍ-LOS.
E O LEITOR OU OUVINTE COMUM, O POBRE COITADO QUE ESPERA TIRAR CONCLUSÕES BASEADAS EM NOTICIÁRIO CLARO E ESPECÍFICO, EM OPINIÕES SERENAS DE PESSOAS SERENAS, FICAM EXTREMAMENTE CONFUSAS, SEM SABER COMO SE ORIENTAR, OS REPOSITÁRIOS DE NOTÍCIAS QUE ORIENTAVAM A FAMOSA “OPINIÃO PÚBLICA” SE ESTÃO FAZENDO UMA FARTURA DE VARIADAS VERSÕES – VARIADAS EM QUANTIDADE, NÃO EM QUALIDADE – DE CADA TEMA, UMA FARTURA DE SENSACIONALISMO – COISA QUE ANTES PERTENCIA À IMPRENSA DE QUINTA CLASSE – GERANDO CONFUSÃO, APENAS.
SE DESCARTÁSSEMOS OS EXCESSOS E FICÁSSEMOS COM O INDISPENSÁVEL CORRETA E HONESTAMENTE APRESENTADO, NÃO VERÍAMOS – NÓS QUE SOMOS PÚBLICO – TUDO MAIS CLARAMENTE? (Crônica publicada no jornal a Tribuna de Santos no dia 11 de setembro de 1978).


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