18 de jan de 2011

BBB, procura-se um antídoto...



Por  SYLVIA COLOMBO -
é editora da Ilustrada. Está na Folha desde 1993 e já foi repórter, editora do Folhateen e correspondente do jornal em Londres. É formada em jornalismo e história.

Começou mais um show de horrores, baixarias e merchandising de quinta categoria, o "Big Brother Brasil", na Rede Globo, em sua surpreendente 11ª edição --como o público brasileiro deu espaço para que um programa de tão baixo nível resistisse por aqui tantos anos?
É verdade que a má qualidade, com raríssimas exceções, da nossa TV aberta não ajuda muito a oferecer opções. Mas graças aos novos tempos, é possível recorrer a outras opções disponíveis na rede ou via DVDs importados.
Foi pensando nisso que resolvi dar uma dica para quem puder e tiver a paciência de pesquisar, encomendar via internet ou xeretar o YouTube. Certamente vai encontrar uma grata surpresa na série "Extras", produzida pela BBC britânica com a HBO norte-americana. Teve duas temporadas e um especial de Natal, e foi ao ar já há algum tempo, entre 2005 e 2007.
Basicamente, contava a história de um Andy Millman, um ator disposto a fazer de tudo para atingir a fama, até que um dia efetivamente consegue ter seu próprio programa. Mas o tiro sai pela culatra, uma vez que sua atração não passa de um show humorístico um tanto idiota, no qual participantes repetem perguntas estúpidas e Andy é obrigado a usar uma peruca ridícula e a fazer caretas todo o tempo.
A série é estrelada pelo sensacional comediante britânico Ricky Gervais, também protagonista da série "The Office" (versão original, também britânica), e que apresentou os prêmios do Globo de Ouro, anteontem. E ainda conta, no elenco, com o co-produtor Stephen Merchant.
Mas o que isso tem a ver com o "BBB"? Pois bem, quando "The Extra Special Series Finale", o grande encerramento da série, tem início, Andy Millman está bem no meio da sala de um "reality show" como o "Big Brother Brasil", exasperado com o comportamento de seus colegas de programa.
A história, então, começa a ser contada a partir de seis meses antes. O personagem vivido por Gervais ainda está estrelando o tal humorístico estúpido. De repente, resolve que quer mudar sua vida, e começa demitindo seu agente, que de agente realmente tem muito pouco, uma vez que divide seu tempo entre cuidar da carreira de Millman e trabalhar numa famosa cadeia de lojas de aparelhos celulares. Também anuncia no ar que está deixando o show para tentar a sorte no cinema.
Andy tem uma namorada, a tristonha Maggie Jacobs (Ashley Jensen), que desiste de ser atriz para trabalhar como faxineira e lhe aconselha a se conformar, como ela, e ser menos ambicioso. Mas, até o fim do programa, Andy não ouvirá seus conselhos. Seguirá pateticamente buscando o sucesso. Fazendo mais extras, indo a restaurantes de famosos, onde se incomoda por ser ignorado pelos paparazzi, e forçando a barra com jornalistas para emplacar matérias em jornais.
A cena em que recebe uma repórter do "Guardian" é fantástica. Andy quer fazê-la crer que está se transformando num ator sério de cinema. E simula que está recebendo uma chamada de Ridley Scott. Acontece que a jornalista conhece Scott pessoalmente e desmonta toda a farsa.
Os diálogos são excelentes e o público é levado ao mesmo tempo a rir e a condoer-se com suas tentativas, todas elas culminando em derrotas humilhantes. Até que seu novo agente, que já não sabe o que fazer com ele, o manda participar do tal "reality show".
A fórmula é idêntica à que conhecemos. Todos os participantes tentam desesperadamente ficar famosos, disputando e expondo seus corpos e tragédias pessoais, armando ciladas para os colegas ou mostrando talentos idiotas que, obviamente, não convencem.
Andy vai se desesperando até que um dia explode e abre seu coração para a câmera. "Por que vocês estão num show em que devem pendurar sua dignidade na porta antes de entrar?!". E segue num contundente discurso sobre o vazio da fama. Pronto, foi o que bastou para que o sucesso finalmente chegasse, estrondoso. Andy sai da casa assediado por jornalistas. Seu novo agente, que antes não lhe dava bola, o vê como uma nova mina de ouro, e seus colegas do "reality show" grudam nele para pegar carona no êxito do camarada.
Mas algo mudou em Andy. Cabisbaixo, ele não vê mais graça em ser famoso e vai buscar o abraço da mulher que deixou de lado lá atrás e que lhe dera os melhores conselhos sobre a fama.
Por que uma TV pública como a britânica consegue produzir comédias inteligentes, expondo o ridículo do mundo dos "reality shows" de forma divertida, irônica e que faz refletir, enquanto aqui não temos nada do gênero? Nem mesmo nossos humorísticos mais inteligentes chegam aos pés do que faz a emissora inglesa em termos de humor (quem quiser mais, deve buscar a incrível "Little Britain", também da BBC, uma sátira aos hábitos e modo de ser da sociedade inglesa).
Enquanto não surgem alternativas ao formato "trash" de nossos programas de TV aberta, vale investigar o que se está fazendo no Reino Unido. O humor naquelas ilhas, não é de hoje, é mesmo o melhor do mundo. 
NÃO TENHO POR HÁBITO COLOCAR NADA SOBRE O PROGRAMA DA GLOBO AQUI... MAS NÃO RESISTI POR QUE O TEXTO É MUITO BEM ESCRITO. TIRANDO O FATO DA AUTORA ACHAR QUE O HUMOR INGLÊS É MUITO BOM, O QUE DISCORDO... DE RESTO, ESPERO QUE GOSTEM...
BEIJOS SURTADOS 
REGINA